O longa é a estréia do diretor Alvaro Delgado Aparicio-L., e já ganhou prêmios em diversos festivais.

Foi escolhido para representar o país na categoria que se chamava melhor filme estrangeiro, e agora tem algum outro nome.

A idéia é fazer o espectador mergulhar no cotidiano de uma pequena vila de trabalhadores, nos Andes peruanos, e perceber seu cotidiano.

É um mundo bastante sofrido, com o solo pedregoso, terreno inclinado, pouca água, e alimentos básicos .

Eu fiquei fascinada com os pratos de comida que aparecem, aquelas batatas diferentonas, milho cozido, uns bolos que parecem ser de milho, e a personagem da mãe menciona pimenta e ensopados.

Mais fascinante ainda é o trabalho que o pai e o filho fazem : os retablos, umas caixas de madeira colorida, com bonequinhos esculpidos a mão, que contam uma história.

Na tradução das legendas, aparece a palavra retábulo, mesmo que eu nunca tenha ouvido.

Podem representar um aspecto de uma família, podem ter santos da Igreja, podem ser uma homenagem a alguém.

Parecem um pouco os nossos bonequinhos nordestinos de barro, mas aqui ficamos sabendo que na massa vai batata.

Para quem não sabe, a batata é sul americana de origem, e nesses lugares ela aparece de todo tamanho, formato, cor, não é aquele negócio sem graça que a gente conhece.

Os clientes dos dois, pai e filho, são pessoas espalhadas pelos vilarejos da região.

Então eles, ou o pai sozinho, estão sempre viajando, muitas vezes de carona em alguma caminhonete ou pequeno caminhão.

A mãe cuida da casa, das ovelhas, e prepara as refeições, que parecem bem apetitosas.

Nós “viajamos” através desse cotidiano, onde também aparece o lazer, em peladas num campinho de futebol, e nas festas de família e da Igreja.

Só pelo observar de costumes e dessa realidade particular, em minha opinião, o filme já vale a pena ser visto.

Mas ainda ganhamos uma emocionante história familiar, com bastante drama.

O pai por vezes “desaparece”, sem dar satisfações à família.

Ele não gosta de indagações a esse respeito, e muitas vezes volta para casa bêbado, ou triste. Ou as duas coisas.

A partir do momento em que seu segredo é revelado, a rotina de todos se modifica de maneira violenta.

E já vemos os aspectos primitivos e doentios dessa comunidade.

Para o que for considerado diferente, vem um castigo moral que massacra e violenta.

A gente fica estático, e mudo, porque sabe que o mundo inteiro é um pouco daquele jeito.

O menino fica um pouco preso em seu cotidiano, com o peso de seguir os passos do pai porque isso é tradição, ou sair desse local e se aventurar em outras terras.

Inclusive a possibilidade de ganhar mais fora dali é real.

Quantas pessoas passam por esse dilema ? E quantas não passam, simplesmente porque são acomodadas e preguiçosas ?

Isso é uma história bem contada.

Por isso o filme é bonito, impactante, importante.

Porque conta a história de uma vida que poderia ser a de alguém em qualquer parte desse (triste) mundo.

Gostei bastante. Recomendo.

https://www.youtube.com/watch?v=NQiv6aFe6M8